14 de abr de 2011

MUSEU DE CAÇAPAVA/SP SERÁ RECUPERADO

 
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O teto não cai mais sobre os carros do antigo Museu Paulista de Antiguidades Mecânicas, em Caçapava (SP), distante 100 km de São Paulo, como vimos na edição 526 da revista Autoesporte (março de 2009). Resgatados um a um, os 27 modelos sobreviventes (ou o que restou deles) foram levados para o galpão da Secretaria de Cultura da cidade, que aos poucos começa a se parecer com o belo museu que o fotógrafo Oswaldo Luiz Palermo, o Vadeco, autor das imagens desta página, visitou há 41 anos. Nos áureos tempos, muitos visitantes pagavam 2 cruzeiros no tão desejado bilhete de entrada do local.
A minha lembrança do lugar não é tão feliz. Há dois anos, dependurado em uma das janelas do antigo museu, vi e fotografei modelos empilhados e em decomposição. “Quando vi esses carros eu era magrelo igual a você”, sacaneou o experiente Vadeco a caminho de Caçapava, contando ainda que seu “passeio” – uma pauta para o Jornal da Tarde em 1970 – incluiu uma voltinha pela cidade no raro Hispano-Suiza 1911 de Roberto Lee, o antigo dono do museu.
Assassinado em 1975, Lee deixou uma fina herança que foi, durante longos anos, mal administrada. Após um acordo entre a prefeitura e a herdeira da coleção, a empresária Mariangela Matarazzo Lee (filha de Lee com Maria Pia Matarazzo), os carros, entre outros itens raros (motores, peças de avião, pôsteres clássicos...), foram cedidos à cidade e salvos de suas catacumbas, onde jaziam totalmente abandonados desde o final dos anos 80, mesmo tendo sido tombados pelo Patrimônio Histórico desde 1982.
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Além da ação do tempo e da natureza, os veículos foram severamente vandalizados. Vidros foram quebrados, pneus rasgados, carros dos anos 20 derrubados de seus cavaletes... “Quando entramos no antigo prédio encontramos de tudo. Cobras, gambás, ratos e muitos morcegos. Os carros ainda foram empilhados uns sobre os outros sem cuidado algum”, conta Marcelo Bellato, funcionário público de Caçapava e coordenador da recuperação do acervo. “Mais do que limpar, temos de higienizar totalmente os carros. Além das fezes de morcego, que cobriam os tetos e capôs, os vândalos também fizeram o mesmo nos interiores. O cheiro era insuportável”, conta.
A coleção, agora em fase de recuperação, chegou a ter 97 veículos. A maioria foi vendida pela família Matarazzo, enquanto outros carros simplesmente desapareceram sem deixar pistas, como o Hispano-Suiza que o Vadeco andou. Mas a lista dos remanescentes ainda segue com valor inestimável. Restam modelos (ou partes deles) de marcas como Cadillac, Rolls-Royce, Singer, Simca, Alfa Romeo, Delage, Hupmobile, Grahan, Talbot, Ford, Vauxhall e Studebaker, entre outras joias.
O Alfa Romeo Tipo BP-3 de 1923 é um dos destaques entre os “sobreviventes”. Trata-se de um monoposto oficial da marca italiana que correu o Grand Prix, a antiga “Fórmula 1” dos anos 30. Esse mesmo carro venceu o GP da Itália, em Monza, em 1932, com o italiano Tazio Nuvolari ao comando do pesado volante de madeira. No Brasil, o mesmo bólido correu a Volta da Gávea, no Rio de Janeiro, em 1935 e 36 com a francesa Helle Nice, umas das pioneiras do automobilismo mundial e que também carrega a fama de ter sido uma das primeiras mulheres a vestir um biquíni nas praias cariocas.
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Da Itália vem também o Fiat 1933, um dos mais castigados da frota. “A carroceria era toda de alumínio. Os invasores fatiaram o modelo inteiro para vender o material. Esse carro é raro até na Itália”, lamenta Bellato, dono de uma pequena coleção de automóveis antigos. “Para nós, entusiastas, é um duro golpe. Moro em Caçapava e desde pequeno acompanho a situação do acervo. Foi muito triste o que aconteceu aqui.”
A “ala” Packard, uma das fabricantes de automóveis mais requintadas dos anos 20 e 30, está representada com quatro modelos na nova casa. Um deles, o Cabriolet Snaer Eight, de 1931, possui um curioso assento escamoteável na parte traseira da carroceria. “Esse era o banco da sogra”, brinca Bellato. Todos esses carros têm uma história especial. O Packard Cabriolet 120 Eight, de 39, serviu à família real britânica durante um passeio pelo Brasil nos anos 50. “Foi Lee quem os conduziu. Em gratidão, a família real lhe concedeu até um título de baronete”, relembra o jornalista Roberto Nasser, antigo amigo de Lee e hoje curador do Museu de Carros Antigos de Brasília (DF). Em Caçapava ele é conhecido como o “salvador do Capeta”.
Estrela do Salão do Automóvel São Paulo de 1964, o Willys Capeta foi o primeiro protótipo brasileiro de um carro esportivo. “Ele e outros dois Willys e um Overland que resgatei estavam em nome da Ford do Brasil, que comprou a Willys do Brasil em 1970.” Hoje brilham na capital federal.
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O Tucker "brasileiro"
Apesar da importância de todos os veículos da coleção, certamente nenhuma outra peça do acervo é tão especial quanto o Tucker Torpedo, um dos carros mais polêmicos e injustiçados da história. Apenas 51 foram produzidos em 1948 e somente dois saíram dos Estados Unidos. Um foi para o museu de Tóquio, no Japão, e o outro viveu seus últimos momentos por aqui.
“Esse exemplar chegou ao Brasil junto com o próprio Preston Tucker e, por conta da mecânica antiga, foi bastante modificado pelos proprietários que teve de 1950 em diante. Seu motor boxer traseiro de helicóptero (hoje exposto no Museu de Bebedouro) foi trocado por um V8 de Cadillac, montado na frente”, confirma Nasser. Essa mudança exigiu uma troca de chassi, câmbio e painel.
Detalhes da marca também desapareceram do carro, assim como seu icônico farol ciclope. “Esse Tucker é um mito aqui nos EUA, acredito que valha, mesmo nesse estado, cerca de R$ 300 mil”, afirma Martin Donaldson, historiador do Tucker Club dos Estados Unidos. “Vamos iniciar uma campanha entre os donos de Tucker nos EUA para tentar recuperar o exemplar brasileiro. Parte do maquinário de fabricação do carro ainda existe”, conta Donaldson.
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Nasce um novo museu em Caçapava
Roberto Lee foi o primeiro colecionador de automóveis do Brasil. Quando fundou o museu, em 1963, carros ainda não eram considerados objetos colecionáveis. “Mas ele era um visionário. Comprou alguns carros 0K e guardou. Ele também viajava muito em busca de veículos clássicos abandonados pelo Brasil”, relembra Nasser, que também colaborou na fundação do museu.
“Nossa cidade, com os modelos recuperados, tem tudo para voltar a ser um dos polos do antigomobilismo do país, como são atualmente Araxá (MG) e Águas de Lindoia (SP)”, aposta Fabrício Correa, secretário de Cultura de Caçapava. Para voltar a ser referência na área, o município tem planos ambiciosos. Primeiro, o antigo local onde os modelos eram expostos, a fazenda Esperança, será reformado. A ação exigirá um trabalho museológico e museográfico, e prevê a construção de estacionamento, banheiros e uma oficina-escola de clássicos. Porém, a prefeitura ainda não sabe informar quando a revitalização será concluída nem como serão os trâmites políticos e monetários para a reconstrução.
O próximo passo é abrir a coleção – no estado em que está – para exposição ao público no local provisório. “Vamos fazer uma festa de reabertura do museu em abril. Todos estão convidados. Queremos encher a cidade de clássicos, como acontecia antigamente, em homenagem ao Roberto Lee”, anunciou Correa. Vadeco e eu já estamos combinando nossa terceira visita ao museu. Reserve uma data em sua agenda e vá também!
Esta matéria, foi integralmente copiada do site da revista Autoesporte e a republicamos pelo interesse do assunto!!!! No link acima, mais fotos do museu e dos veículos resgatados….A reportagem foi feita por Thiago Vinholes // Fotos: Oswaldo Luiz Palermo.



2 comentários :

  1. conheço os dois homens que polia todos os carros de roberto

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  2. Leandro Mesquita Mold19 de jul de 2014 01:49:00

    Meu pai, pouco antes do assassinato do Roberto Lee visitou o museu de Caçapava. Conta ele que, quando chegava ao museu, viu o Roberto Lee passeando pela propriedade em um carro muito estranho (era o Hispano-Suiza 1911). Meu pai entrou dentro do museu e ficou apreciando os carros. Então, após um tempo, passou por um local do museu e avistou um carro em estado ruim de conservação, afastado em um canto escuro e que não estava em exposição. Meu pai exclamou que era um Tucker... Roberto Lee estava ali perto, ouviu, aproximou-se e perguntou ao meu pai se ele conhecia aquele carro. Diante da afirmativa do meu pai, que sabia da história do Preston Tucker, Roberto Lee removeu o cordão de isolamento e permitiu que o visitante olhasse o carro de perto. Conversa vai e conversa vem, Roberto Lee contou que vira o carro em São Paulo, estacionado na rua. Ficou tão obcecado em comprá-lo que ficou esperando a chegada do dono e fez uma proposta que foi aceita. Foi assim que Roberto Lee adquiriu o Tucker!

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